terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Crônica - Seis da Tarde

Histórias de amor. Você pode olhar para uma e reconhecê-la? Achei a mais linda de todas, que nenhum escritor conseguiu inventar. Nenhum romântico conseguiu traduzir. Quem diria; ela estava lá, onde nem poderia imaginar. Sim, é uma história de amor. Ela não começa num jardim florido, onde os pássaros cantam e as águas são límpidas. Ela começa quando Deus prepara tudo isso, como um presente de boas-vindas.

Fiz essa introdução apenas para anunciar de quem vou falar. De Adão. Você pode olhar para essa parte da Palavra e ver uma história de amor? Queda: é essa a lembrança imediata que vem a mente quando nos referimos ao primeiro homem criado por Deus. Mas quem escolheria emprestar para o filho, entre os nomes bíblicos, o nome daquele que falhou, que foi fraco; expulso do jardim?

Gênesis sempre será meu livro preferido, especialmente a parte do Éden. Gosto de encontrar os momentos em que as coisas foram criadas. É incrível, mas em cada leitura eu acho algo novo. Descobri mais três, que novamente me deixaram engasgada.

Tantos homens transformaram suas vidas numa busca incessante de Deus, que ficou marcada em seus próprios nomes, como Daniel (Deus é meu juiz) e Davi (amado). Adão era apenas “o da terra vermelha”. Mesmo assim não houve pessoa mais privilegiada do que ele. Os adoradores citados, assim como todos nós, precisaram literalmente “rebolar” para alcançar a presença de Deus. Já Adão sabia a cor dos olhos de Deus e a textura de seus cabelos.

Temos hora marcada para ir atrás de Deus, em cultos e celebrações, para que na reunião de dois ou três Ele se faça presente. Diariamente, era o Senhor que ia ao jardim, para ver Adão, na virada do dia. “Ah Senhor, estás aí!?” Plenitude!

Até que veio o trágico episódio, que conhecemos bem. O erro, a desobediência, o pecado original. Somos filhos de Adão, por causa desse gesto. Mas não herdamos só o pecado. Deus é justo e santo. Quando eu abri a Bíblia para consultar uns versículos fui atraída pelo episódio da condenação e expulsão.

No mesmo instante veio a mente a imagem vista há poucos minutos na TV, da mãe que chorava, declarando que denunciou o filho criminoso as autoridades, para que não perecesse nas mãos de traficantes. Nem todos entendem essa atitude. Certamente não posso afirmar que o amor daquela mulher pelo filho acabou no momento em que fez justiça.

Visualizei os anjos e a espada, guardando a entrada do jardim. Por cima do episódio, da partida dos moradores, repousava os olhos do Pai. Pude ouvir o coração dizendo com lamento: “Eu te amo, tanto!” Alguns dias após a partida surgia algo que não foi planejado na criação, mas tornou-se inevitável: a saudade. Segundo o Aurélio é a lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; pesar pela ausência de alguém que nos é querido.

Esse sentimento ficou expresso na última fala de Adão citada: “Alcancei do Senhor um varão” (Gn 4:1). Em meio à vida dura a qual havia sido condenado ele se sentiu contemplado, lembrado. Agora ele precisava “alcançar” as coisas que antes estavam a sua disposição. Adão viveu 930 anos. Antes de julgá-lo, imagine como foram esses anos, longe de Deus. Os finais de tarde já não eram os mesmos. Talvez, num local de terra batida, sem flores, ele tenha assistido sozinho e nostálgico a despedida do sol. “Que saudades de ti... meu Pai!”

Já nascemos com saudades de Deus, como herança de Adão. Também herdamos a misericórdia. Era praticamente inaceitável que alguém que teve, verdadeiramente, do bom e do melhor, pudesse cometer tamanho erro. Aparentemente tolo, mas gravíssimo. Mas o chão não se abriu e o casal não morreu imediatamente. O pecado os fez sentir vergonha e se esconderem, pois perceberam que estavam nus. Mesmo assim, a primeira atitude de Deus foi vesti-los. É como numa canção que diz: “me amas como sou, mas não me deixas como estou”.

Não cometemos o pecado original, mas certamente fizemos pior, bem pior que Adão. Não apenas fugimos dEle, mas o ignoramos. Rimos e debochamos das coisas relacionadas a Ele. Odiamos o nosso próximo. Fazemos o que nos dá na telha. Blasfemamos. Enganamos os outros. Tentamos enganar a Deus. Quantas vezes terminamos o dia sem lembrar que Ele existe e nos olha? Com exceção da hora em que pedimos proteção ou um milagre instantâneo, bem rapidinho, como se Ele não se importasse.

E mesmo estando distante dos filhos (que não querem ser filhos), Deus continua cuidando de nós. O final do primeiro homem não é descrito em detalhes, mas seu sentimento de vergonha pode ser subentendido. Todos somos ou fomos Adão. Eu quero ser um Adão as avessas, para ir do pecado ao jardim.

Ainda falta a terceira descoberta, a mais incrível. Comparando as obras das pessoas narradas na Palavra (que são reais, não ficção), Adão parece desprezível. Todos querem ser como Davi, como Daniel. Mas primeiramente todos são como Adão. Isso é esplêndido, pois só assim recebemos a maior das heranças. Herdamos as saudades, a misericórdia e também o amor. Não qualquer amor.

Enquanto meditava nessas coisas veio claramente na memória, com a tradução reveladora: “E Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). Adão foi moldado pelas mãos do Pai, como ato de carinho. O homem é apenas pó. Que valor tem alguém que é apenas terra? Somente para Deus essa insignificante terra vira algo digno de amor. Ele mesmo se chama de Oleiro, pois nos moldou e quer moldar novamente.

Vi Adão expresso nesse versículo, pois foi através dele que Deus começou a amar o mundo, dessa “tal maneira”. A tal maneira que supera nossas terríveis falhas, pois somos herdeiros da misericórdia. Todos nós saímos de casa junto com Adão. E essa “tal maneira” permite que o Pai diga a todos nós: “Que saudades de ti oh filho, volta pra mim!” Ele sacrificou o único Filho (feito igual a Ele) que nunca o desobedeceu, por todas as ovelhas perdidas. Se Jesus é o Caminho é porque o Pai tem saudades.

A “tal maneira” é porque não há explicação, nem justificativa. Ele simplesmente nos ama. Somos apenas pó. Deus não precisa de nós e não temos nada que seja somente nosso para dar a Ele. Não podemos acrescentar nada a Deus. Só que mesmo sendo Perfeito o Pai revela que existem formas de aperfeiçoamento de seu poder, e certamente de seu amor. Pois um amor mútuo, que passa pelas provas de fogo desse mundo, é mais verdadeiro, forte e eterno. Deixe Deus se aperfeiçoar! Essa é uma história de amor.

“Quando Tu olhas para mim Senhor, nada posso ocultar. O Teu amor me convence a todo o meu ser te entregar. Quando não tenho mais saída, quando não tenho aonde ir, mas quando os Teus olhos encontram os meus, descubro o que perco pra Ti. Eu estou aqui, no Teu jardim oh Deus! Estou aqui! Não quero mais me esconder de Ti... Oh vem e sara-me, oh vem e cura-me!” (Seis da Tarde)
Site MANT Belém

2 comentários:

Suely Reis disse...

Profundo. Impactante. Revelador. Lindo!

♥ Dani Chagas ♥ disse...

Creio q 2009 será um ano tremendo para essa "padaria". Posso ver o amor de Deus movendo a vida desses padeiros.
Quero notícias frequentes de vcs. =)

FELIZ 2009!!!

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