segunda-feira, 9 de junho de 2008

Voltar a ser Belém

É muito fácil ser evangélico. Fácil demais, pelo menos nos dias de hoje. Quem não se sente revolucionário por sua opção política, por fechar uma rua em protesto, pelo corte de cabelo? Ou ainda, por ser evangélico? Mas até que ponto aceitar Jesus é uma revolução?

Hoje vivemos tempos onde tudo aponta para o Salvador. São muitos os que já o aceitaram - o porteiro do seu prédio, sua professora, seu médico, sua cabeleireira, e por aí vai. Na escola, mesmo em minoria, sempre existem amigos em Cristo. Nas lojas de cds há prateleiras lotadas de música gospel em todos os ritmos. Também há canais de TV, rádios, grifes de roupa, livrarias e locadoras só para evangélicos. Quem diria, temos até bancada evangélica na câmara dos vereadores. Para muitos não há mais surpresa quando algum popstar se converte. Até o craque da seleção dedica os gols à Jesus.

Mas sou de uma época onde agir assim não era nem um pouco glamouroso e fácil. Quando eu já me entendia por gente, na década de 80, os atuais evangélicos eram chamados de “crentes”. Quando eu passava perto de uma igrejinha “diferente” no bairro da periferia de Belém onde vivi parte da infância, eu nem sabia o que era um crente. Só tinha uma certeza - que eles cantavam e tocavam mal uma música chata pra caramba. As mulheres não cortavam os cabelos e usavam saias longas. Os homens andavam sempre com a gola da camisa fechada e Bíblia debaixo do braço.

Ainda lembro traumatizada da primeira crente que conheci. Por não enxergar nela um bom exemplo preferi repudiar qualquer um que parecesse com ela. Mas não era fácil encontrar similares da “espécie”, pois dava pra contar nos dedos quantas igrejas evangélicas existiam em Belém. Assim como eu muita gente passou a se coçar só de ouvir “Aleluia”. Um preconceito reforçado por sátiras como o Tim Tones, no programa do Chico Anysio (pode rodar a sacolinha. Que a graça de Tim Tones esteja em todos os lares), que ainda passava na época. Os evangélicos eram conhecidos como chatos e loucos, daqueles que saiam distribuindo papéis com mensagens bíblicas. Quem não chamou de louco aquele homem que falava do Evangelho todo santo dia, na Presidente Vargas, virando uma lenda urbana da capital?

Hoje os evangélicos não parecem mais os anunciadores do apocalipse. Na versão contemporânea os pregadores dizem: “o Senhor está operando milagres nesse lugar”. Tudo vira profecia de benção. Mas isso é verdade nos nossos corações? Onde estão esses milagres? No sábado perguntei isso a Deus e Ele me levou para um passeio. No caminho, vi uma infinidade de igrejas evangélicas ao longo da BR-316. No desvio para chegar a Santo Antônio do Tauá não foi diferente. Havia até o mercadinho “Salmo 25”, bem pertinho do concorrente “Salmo 26”.

Uma evangélica com cabelos longos tradicionais indicou o caminho da casa que eu procurava. Lá dentro uma jovem de 18 anos se enforcou no banheiro, naquela madrugada, ressentida pelas brigas com a mãe, a qual quebrou as costelas com pisões. Na volta tivemos que acelerar para cobrir uma rebelião no presídio de Marituba, mas não cheguei a tempo. Desviando caminho por Ananindeua contei outras dezenas de igrejas de todo o tipo de denominação. No muro de uma delas está profetizado que o município é de Jesus. Pedimos informações para um grupo de adolescentes que caminhava com violões, livros e Bíblias, sorrindo, debaixo de sol escaldante. Nos vidros dos carros vi muitos adesivos como “esse veículo é fruto da promessa de Jesus” e os outdoors anunciavam congressos de igrejas. Seria isso tudo o milagre do Senhor?

No dia seguinte fui cobrir o “Domingo na Praça com Jesus”, promovido pela Igreja Batista Missionária da Amazônia. Que coisa linda foi aquilo. Um logradouro tão conhecido e movimentado estava tomado por talentos jovens para louvar Jesus. Tinha oração, teatro, dança e música com direito a “Eu tenho um chamado” versão forró. No palco estava o ministro de louvor da Assembléia de Deus de Ananindeua, Júnior Guimarães. Para minha surpresa tratava-se do ex-vocalista da banda Duas Gerações, que animava as micaretas de Belém e Mosqueiro. Descontraído ele dizia ao público: “você pulou muito comigo atrás do trio-elétrico”. “E como pulei”, pensei. O cumprimentei e disse como estava em feliz em revê-lo, servindo a Jesus. Logo atrás havia um símbolo daquela época - o trio Açaí, que ontem puxou o público da parada junina. Tinha mais gente atrás de Jesus do que atrás dos bois.

Quando vi aqueles jovens dançando cheios de vigor, com tanta verdade nos olhos, quis dizer ao Senhor como aquilo tudo era grandioso. Mudei de idéia. Sim, isso mesmo! Não era essa a mensagem que ele tinha pra mim. Na mesma hora veio a correção: isso aqui é o mínimo, o mínimo que podemos fazer para louvá-lo. Foi quando percebi que não estava fazendo nem o mínimo, nem sequer isso. Fui confrontada. Por acaso estamos achando que o grande plano de Deus é converter pessoas?

O erro de um país predominantemente católico é achar que nascemos salvos e basta morrer para ir pro céu. Mas do que adianta mudar de religião ou “nascer evangélico” se achamos que Jesus é uma chegada e não um caminho? Voltando pra casa agradeci a Deus pela vida de todos os “loucos” do passado, que deixaram tudo mastigado para nós, da mesma forma que muita coisa está mastigada desde os tempos de Abraão. Deus os usou para que hoje não seja vergonhoso e patético dizer que é crente. E o que fazemos com esse imensurável privilégio? Pedi perdão a Deus dizendo que não quero o menos do menos, nem o mais do mesmo, apenas mais do mais.

Ninguém ganhará medalha por aceitar Jesus. Foi Ele quem nos escolheu e nomeou para darmos fruto, e que esse fruto permaneça. O Senhor mudou nossa vida. E nós? O que mudamos? Chego ao culto e Deus repete essas revelações para a pregadora. Através dela ele nos lembrava o que é Belém (em hebraico, cada do pão). Somos Belém, mas o que temos a oferecer? Não estaríamos presenciando absurdo semelhante ao vivido por Elimeleque, que saiu da casa do pão porque estava faminto? Aquela jovem do Tauá morreu, mas foi de fome. Quem deu pão a ela? Somos padarias com prateleiras vazias ou não temos alimento nem para nós mesmos? O Senhor não nos chamou para usarmos grife JC, foi para alimentar as pessoas com o Pão Vivo. O mundo, nosso país, nossa cidade, estão famintos. Eis-me aqui, ou não?
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5 comentários:

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