terça-feira, 19 de agosto de 2008

Despedaçando a vergonha

“Ele ergue do pó o desvalido e do montouro,
o necessitado, para assentar ao lado dos príncipes,
sim, com os príncipes do seu povo.” (Sl 113: 7-8)
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Oh céus, oh vida, oh azar”, era o bordão de Hardy, a hiena do desenho animado que nunca acreditava que as coisas pudessem dar certo. Como era engraçado ver aquele personagem todo curvado, tristonho, jogando pessimismo nos planos mirabolantes do amigo leão. Como em toda piada, nada é engraçado quando passa para a vida real. “Oh dia, oh azar” é o começo e o fim da jornada diária de muita gente. O pessimismo nasce geralmente da falta de algo – recursos financeiros, saúde, qualidades, oportunidades. Até o lugar onde vivem acaba sendo um selo em seu destino, quando as pessoas se confundem com o ambiente.

Na Região Metropolitana de Belém há pessoas que moram em invasões apelidadas de “Elo Perdido” e “Sapolândia”, aonde não chega asfalto, saneamento nem dignidade. Uma moradora de área limite entre Belém e Ananindeua, sob nuvem de fumaça vinda do lixão clandestino, nem fazia questão de providências. Afinal, era melhor do que a época em que o lixo atraía moscas e embrulhava o estômago. “Fazer o quê?”, dizia, conformada com a realidade de pobreza. Talvez em seu coração ela dissesse: “quem sou eu pra exigir alguma coisa?”.

Imagine então o que sentiu aquele que se definia como “cachorro morto” e morava em Lo-Debar, que significa “sem palavras” ou “não verdejante”? Era Mefibosete, filho de Jônatas e neto de Saul, o primeiro rei de Israel. Com apenas cinco anos de idade uma avalanche de tragédias mudou a vida daquele nobre. Numa batalha contra os filisteus ficou órfão de pai e avô. Na pressa da fuga a ama deixou o menino cair de dos braços, num acidente que o deixou aleijado das duas pernas. (2 Sm 4)

Durante anos o esconderijo de Mefibosete foi um lugar inóspito onde não havia pasto, semelhante ao coração daquele cujos sonhos e promessas pareciam mortos. A origem nobre, que não podia ser revelada por questão de segurança, não trazia consolo àquele anônimo aleijado, numa época sem cadeiras de rodas.

A sorte começou a mudar quando o rei Davi perguntou: “Resta ainda, porventura, alguém da casa de Saul para que use eu de bondade para com ele, por amor de Jônatas?” (2 Sm 9.3). Temeroso Mefibosete foi levado à presença do rei para ter tudo restituído. “Quem é teu servo, para teres olhado para um cão morto tal como eu?”, questionou inclinado diante do rei.

Ao órfão Davi concedeu status de filho, que comeu do pão assentado à mesa dos nobres. Era também a nobre família de Jesus, chamado Filho de Davi nas Escrituras. Mefibosete foi restituído, em nobreza, honra, dignidade e sonhos. Foi abençoado com a misericórdia e passou de cão morto à nobre. Mefibosete, com nome vindo da junção das palavras “despedaçado” e “vergonha”, ficou livre do decreto de morte.

Muitos Mefibosetes conseguem superar situações totalmente desfavoráveis. São coisas que só acontecem nas matérias do Globo Repórter – é o que muitos preferem concluir. Como o caso da senhora que começou um negócio a partir de R$1 que pediu emprestado. Como bem concluiu a matéria “começar o negócio com R$ 1 milhão teria sido bem mais fácil, mas Raimunda só tinha R$ 1”. Sem dinheiro, sem coragem, sem amigos, sem a saúde, sem emprego, sem beleza, sem dentes, muita gente vira cão morto, sem perceber que a mesa já está posta, à espera dos nobres.
Site MANT Belém

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