sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Crônica - Belém, terra de colheita

Na terça-feira eu peguei o ônibus errado. À noite, em plena chuva, eu consegui pegar o ônibus errado para voltar pra casa. Me sinto envergonhada sempre que apronto uma dessas. “Há um propósito para essa mancada, Pai?”.

Ele nem precisou responder, pois aquele desleixo era um sintoma das ideias confusas que estavam se acumulando. São aqueles dias de submersão a-lá Pedro. Apesar da sombrinha eu já estava encharcada, sem palavras pra pedir perdão pela pouca fé. Um alívio: eu peguei o ônibus errado, mas ainda estava em Belém.

Mesmo sendo pequena é possível se atrapalhar com as ruas da cidade. Sempre ando olhando as calçadas. Ainda na infância, passeando pelo bairro da minha vida, Batista Campos, eu sentia um amor intenso pela cidade. Às vezes tinha a impressão de conhecer cada pedacinho de calçada de Belém. Sentia-me meio que orgulhosa por conhecer, mesmo que de relance, cada casa, em cada rua dos bairros em que passava. Certa vez, dobrando a Conselheiro com a Apinagés, eu senti claramente uma convicção, e disse a mim mesma que não havia nascido por acaso nessa cidade – eu havia sido feita para ela.

Tanta gente planejava se formar e sair daqui. Na contramão eu era grata a Deus, por Belém ser do jeitinho que é (mesmo sem poder dizer o que atraía). Naquela empolgação eu ainda me achava a pessoa mais apaixonada por Belém. Até ensaiei em pensamento uma resposta aos que debochassem da minha escolha: “eu fui feita pra Belém”. Parece até aquele refrão: “não vou sair, melhor você voltar pra cá, não vou deixar esse lugar, pois quando eu tava me arrumando pra ir, bati com os olhos no luar, a lua foi bater no mar e eu fui que fui ficando”.

Belém. Hoje eu sei que Deus me quer aqui. Pesquisando sobre a capital paraense tento fazer um raio-x da cidade, que, segundo nosso projeto de vida, será palco para o ano de plenitude do Espírito Santo. É um ano de colheita. Se parece pouco colher numa cidade com 1,424 milhão de habitantes (fora a população flutuante da região metropolitana) basta pensar que um dia Belém se resumia a cerca de quinhentos habitantes.

Era assim em 1616 no núcleo chamado Forte do Presépio, construído em estrutura de madeira e coberto com palha. As ruas de Belém surgiram ao redor da praça d’armas dos soldados. A primeira foi a Rua do Norte (atual Siqueira Mendes) seguida das paralelas Rua do Espírito Santo (Dr. Assis) e Rua dos Cavaleiros (Dr. Malcher). De lá pra cá muitas ruas e muitas mangueiras.

Hoje é possível até se perder na cidade, principalmente para os que não nasceram aqui. Quando os missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren, pioneiros do movimento pentecostal no Brasil, receberam direção de Deus para vir para Belém, precisaram consultar o mapa para descobrir onde era o Pará. Nem o dinheiro das passagens eles tinham, mas cada milagre foi providenciado para que tudo fosse conforme a vontade do Pai. Também não sabiam falar português, mas o certo é que deu certo. E tudo começou ali, na Siqueira Mendes, 79, Cidade Velha, como semente para o avivamento em terras brasileiras.

Na abençoada ministração de quarta-feira, na Rede de Mulheres, a pastora falava sobre o tempo de colheita. “Fomos plantadas na terra da colheita”, ouviu de Deus. Em seguida pediu para que as pessoas que não haviam nascido na cidade ficassem de pé. Na hora, achei que seria mais fácil eu, e outras gatas pingadas, nos levantarmos. “Eu nasci aqui”, pensei. Os outros foram atraídos, pois é tempo de colheita.

“Colher o que afinal?”, poderíamos perguntar. Um dos momentos mais especiais dos últimos tempos foi conhecer o Carlos Cancela, autor de Casa do Pão. Tudo pela necessidade de saber o que Deus havia falado a ele ao escrever aquela canção. Se Belém é uma cidade de adoração está na hora da colheita dos verdadeiros adoradores. “Mas de que árvore nasce adoradores? Primeiro tem que semear!” Isso já foi feito. Imagine quantas foram lançadas somente através da vida de Daniel Berg, que chegou aqui quase um século atrás! Já dá pra colher; é hora de colher.

Às vezes caímos no erro de pensar que alguns são separados especialmente, mantendo a exclusividade para fazer as “obras maiores”, anunciadas por Jesus (Jo 14:12). Nessa madrugada aprendi que antes mesmo de começarmos a caminhada, de termos despertado para o chamado, Deus já investiu em nós.

Ele não deixou nenhum escolhido de fora. Havia dez virgens; que somente mais tarde se distinguiram entre néscias e prudentes, mas o fato é que todas tinham lâmpadas (Mt 25:1). “Quantos talentos Deus investiu em mim?”, questionamos. Queremos saber nossa cotação no mercado, sem entender que o Senhor já nos confiou os Seus bens, de acordo com nossa capacidade (Mt 25:14). Cinco, dois, um talento. Tanto faz, pois um talento é muito; e não é de qualquer investidor. De repente eu recebi um talento, pra devolver o dobro. De repente recebi cinco, e não posso devolver apenas dois.

Não é de hoje que Belém atrai, por diferentes motivos, culturais, econômicos, etc. Ela continuará atraindo, também pela unção. Os escolhidos continuarão plantados aqui, criando raízes, junto com as “mudas” que chegaram depois. Tudo até que possamos entender que Ele já semeou e devemos correr para o campo. Que seja o último dia em que apanhamos o ônibus errado, para não ficar apenas dando voltas. Continuaremos em Belém, para a colheita.

Site MANT Belém

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