terça-feira, 7 de abril de 2009

Crônica – Teu pai vai ter dar...

Quem não se lembra do brinquedo preferido que teve na infância? Na minha época a criançada, que não era boba, sonhava com uma Caloi ou com os lançamentos da Estrela, que faziam nossos olhos brilhar a cada comercial na televisão. Conquistei alguns, mas nenhum deles ocupou espaço no meu coração a ponto de ganharem algumas linhas, hoje, num texto como esse.

Há infinitas formas de impactar a vida das pessoas, mesmo de formas simples e singelas. Nem se quisesse poderia me esquecer dos meus brinquedos especiais, que foram desse jeitinho.

Pequenininha, lá pelos seis anos, eu ganhei o primeiro. Notei que naqueles tempos mamãe começou a colecionar caixas de fósforo vazias. Quando ela guardava uma na gaveta eu tentava, afoita, arrancar dela a explicação, mas sem sucesso. O mistério seria revelado no dia em que papai e mamãe jogaram todas elas sobre a cama e começaram a encapá-las, uma a uma, com papel de presente listrado.

“O que vocês estão fazendo?”, insistia sem parar. Com um sorriso no canto dos lábios eles apenas se concentravam na tarefa. Depois, colaram uma caixinha na outra. Como num passe de mágica apareceu diante de meus olhos uma salinha, com poltronas, sofá e mesinha – igual a sala de casa, em miniatura. Não dá para traduzir a minha felicidade nessa hora, apenas imagine.

O segundo, e preferido, veio alguns anos depois. Não sei o que deu na criançada da rua, mas todos resolveram, na mesma tarde, brincar de fazer bolinhas de sabão. Quando cheguei na frente de casa tudo estava tomado de bolinhas. Encantada com a cena, eu tentava desesperadamente alcançar as tigelas dos garotos, pois queria fazer as minhas próprias bolinhas. Novinha e baixinha (esse problema até hoje não foi resolvido), eu parecia um pigmeu saltitando entre os gigantes.

Eu não tinha um fazedor de bolinhas (existe nome certo pra isso?). Até juntei um do chão, feito com canudinho, mas não funcionava. Como ninguém se compadecia eu voltei pra casa e apelei para a única estratégia que conhecia na época – a tolice. Chorando, eu relatei meu drama para a mamãe, que tentava me consolar dizendo: “não chora minha filha, teu pai vai te dar”.

Não adiantava, porque eu havia dado o caso como perdido. Todos lá, felizes, e eu, sem um... fazedor de bolinhas. Quem suportaria? Me restava chorar e deixar todos bem convencidos da minha tragédia. “Teu pai vai te dar”, repetia a mamãe. Mas aquilo não fazia sentido pra mim.

“Teu pai vai te dar”, novamente. Eu contra-argumentava, aos berros. Nem lembro as bobagens que falei – é difícil falar, berrar, chorar e entender o que você mesmo disse, tudo ao mesmo tempo. Ainda sim eu mantive um olho no peixe e outro no gato.

Enquanto eu berrava papai andava pela cozinha, com ar pensativo, procurando algo. Nem prestava atenção no meu show. Estava numa calmaria só, que de alguma forma me incomodava. Eu o observava enquanto ouvia: “teu pai vai te dar”. Eu estava tensa porque estava escurecendo e a brincadeira estava acabando. Enquanto isso papai estava pendurado na escada, pegando uma cesta com ferramentas e trecos. Interrogação no ar.

Sentia que ele iria me surpreender, só não sabia como. Pra convencer a mamãe que não tinha jeito eu tentava argumentar que ele não teria como me dar um igual aos que os outros tinham. Meu fôlego já estava acabando. E ele também já estava acabando...

Apelidamos o papai de MacGyver, aquele do Profissão Perigo, que era capaz de fazer uma bomba usando chiclete mastigado. Com habilidade semelhante ele tirou da cesta um fio encapado, resistente, cor de tijolo. Com o alicate começou a dar formas ao fio. Torce daqui, enrola dali. Fez tudo passo a passo, bem pertinho dos meus olhos.

Sem dizer uma palavra ele segurou, entre os dois dedos, o meu presente... Colocou diante de mim, o mais lindo, mais perfeito e melhor... fazedor de bolinhas do mundo! Fiquei muda. Não lembro de ter agradecido, mas o meu sorriso, de um lado a outro da orelha, fez isso por mim.

A noite havia caído, a criançada se recolheu. Mas já não importava. Só brinquei no dia seguinte, sozinha, na varanda. Estava um poço de felicidade. Afinal, o meu pai havia feito, com suas próprias mãos, o brinquedo mais lindo do mundo, e as crianças da rua não poderiam ter um igual. Era único. Lembro dos meus pais terem dado uma espiadinha pela janela, observando minha brincadeira.

Quando se chega a fase adulta é fácil pensar que já superamos os tempos da tolice. Podemos até não prantear diante de nossos pais. Mas e diante do Pai?

A esperança é um exercício. É coisa grande – a soma de fé e confiança, conforme aprendi recentemente. A esperança vem para vencer a tolice. Quantas vezes nos flagramos como essa menininha, que julga tudo sem solução, apesar da promessa do Pai atencioso? Quantas vezes não damos crédito a quem já tem tudo planejado para nos dar o presente que tanto queremos?

Sentimos até nossa causa ignorada por Aquele que tem uma cesta cheinha de bençãos. Duvidamos que Ele queira nos dar o que desejamos tanto. Duvidamos até que Ele tenha habilidade e capacidade para fazer isso. Com tantos berros não conseguimos entender nada, pois os argumentos de um chorão não fazem sentido nem para si mesmo.

Dou graças ao Senhor pelos presentes que tem me dado, mesmo os simples e singelos. Dou graças pelo amor que tem derramado, que me fazem crescer, dia após dia, devagarzinho.

Ah, se eu tivesse aprendido antes que o Pai, mesmo no aparente silêncio, trabalha sem parar, só pra me fazer feliz. Um Deus que trabalha por aqueles que Nele esperam. Nunca é tarde para aprender, para minha e para sua sorte – você que leu até aqui.

Tudo pode ser mais fácil para nós se diminuirmos o volume do nosso choro. Aí vamos poder ouvir, entender e acreditar naquilo que alguém, com um pouco mais de esperança, tanto nos repete: “teu Pai vai te dar!”.

Oh, Pai! Tu me darás! Vais cumprir os desejos do meu coração. Me ajuda a acreditar, a Te buscar; a esperar em Ti! Te amo, meu Pai!

Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra? Ou se pedir um peixe, lhe dará uma cobra? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem?” (Mateus 7:9-11)
Site MANT Belém

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