domingo, 20 de setembro de 2009

Crônica – Essa aguenta!

No finalzinho de 2008 passou uma reportagem na TV que achei muito legal, sobre as famosas panelas de barro do Espírito Santo, totalmente indispensáveis para a culinária capixaba. Quando percebi já estava de olhos grudados na tela, acompanhando a confecção artesanal das peças. Na expectativa de entrar no ano da plenitude do Espírito Santo (o próprio) lembrei, é claro, da passagem bíblica do Oleiro.

Enquanto a mulherada amassava com vigor a matéria-prima eu estava empolgada com a ideia de ser moldada pelas mãos do Senhor, para ser um vaso de honra, para ser cheia do Espírito, da plenitude. “Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel?” (Jr 18:6). “Ai que legal! Me molda Senhor!!!!”, pensei.

Depois perguntei: “por que barro Pai? Isso 'guenta'?” A primeira vista parece estranha a escolha desse material nada nobre e relativamente frágil para fazer novas criaturas, ao gosto de Deus. Só deixei essa dúvida de lado um instante para me perguntar como uma panela de barro suporta o fogo na hora do preparo dos pratos tradicionais.

Tentei lembrar das aulas de Física para saber se o barro é considerado um bom condutor de calor (o Google disse que não). De qualquer forma eu achei legal a relação vaso do Espírito Santo e panela do Espírito Santo (ES). “Ai que legal, Pai. Eu sou como o barro nas Tuas mãos. Olha eu aí”, continuava empolgada.

É. Só que a passagem do Oleiro só mostra a etapa de moldagem, do barro molinho, molinho. Ainda de olhos esbugalhados diante da tela, bancando o vaso (ou melhor, panela) vi que o processo não terminava aí.

Foi quando, sem mais nem menos, sem dó nem piedade, as mulheres tascaram as panelas no meio do fogo. Como ainda estava fingindo que era eu foi como uma cena de filme de terror com aquela musiquinha de suspense ao fundo. “Aaaaaaaai, me lasquei”.

Olhando, eu não sabia dizer se estavam fabricando ou destruindo as panelas, pois virou um amontoado de panelas e cinzas. Com umas varas a mulher cutucava de longe as peças e batia no fundo, cheia de habilidade, sem medo de deixar cair. Era a confiança de quem já havia feito centenas daquelas. Ainda tinindo, elas tascaram tanino retirado de cascas de árvore na superfície, para dar a coloração, que fervilhava. “Aaai”.

O fato é que as benditas, de tão tradicionais, viraram patrimônio da cultura local. Sem uma legítima panela de barro capixaba é impossível fazer uma autêntica moqueca capixaba. São panelas que ressaltam o paladar e deixam tudo mais apetitoso. Há uma técnica para preparar a argila, moldar, dar acabamento e certificar a boa queima, para que a panela não rache ou fique trincada. Depois disso elas “guentam” que é uma beleza. E quanto mais se usa melhor ficam.

“Puxa, Pai. O Senhor vai me tascar no fogo né, pra eu ficar no jeito”. Já havia aprendido que transformações também podem ser processos doloridos. Se não o são, certamente deixaram uma marca, afinal Deus não seria Oleiro para deixar o serviço pela metade e deixar o vaso mole se desfazer todo.

Após tomar uma aguinha para me recompor disse: “é Pai, não sei como irás fazer, mas eu quero ser um vaso (ou panela) feita no fogo, que depois aguenta o fogo sem me desfazer, cada vez melhor”. Antes o fogo de Deus; chama transformadora, purificadora. Como a brasa que tocou Isaías, para que passasse de um homem com lábios impuros para grande profeta usado por Deus (Isaías 6:7).

Mais adiante eu li algo que confrontava com a minha empolgação com o barro. “Ora, numa grande casa não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra” (II Tm 2:20).

De fato, o barro nunca foi nobre. É, mas até então eu nunca vi uma passagem onde Deus faz referência a si mesmo como “o Ferreiro”, “o Metaleiro” ou “O Ourives, mas sim “O Oleiro”. É fácil e confortável desejar ser um vaso de ouro ou de prata. Mas as vezes isso nos faz esquecer de nossa real condição.

Um vaso de barro é firme, mas é barro. Se cair quebra. Da mesma forma, quando nos afastamos de Deus, caímos e quebramos. Não há como mudar isso – se cair, quebra. Ação, reação. Mas enquanto estiver em seu devido lugar, manuseado com o devido cuidado, continuará firme. Firme do jeito que foi fabricado, com as próprias mãos do Senhor. Cada detalhe, feito com carinho e atenção. O meu conteúdo fará toda a diferença.
Site MANT Belém

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