segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Crônica - À sombra da aboboreira

Estenda seus braços. Imagine que nesse instante alguém coloca esse delicado bebê sobre eles. Pense: você teria coragem de baixar os braços agora? Teria? Certamente a criança iria cair no chão.

Carregar essa criança é uma tarefa, uma responsabilidade. Certamente ninguém lhe daria essa missão se não acreditasse que você é capaz de cuidar bem dela. Ou ainda, que não lhe julgasse responsável o suficiente para, pelo menos, não deixá-la cair do colo.

Não sei se você leva jeito com crianças, nem mesmo se você leva jeito com pessoas em geral. Mas sei que o Senhor espera que sejamos servos que tem compaixão pelos outros. Compaixão tem a ver com o amor. É o sentimento que nos toma e nos leva a fazer a coisa certa, mesmo sem saber exatamente o motivo. Foi o mesmo sentimento que fez a filha de Faraó não cumprir o decreto de morte sobre os primogênitos, preservando a vida do bebê hebreu - o pequeno Moisés (Ex 2:6).

Mas existem bebês grandes, que não são tão bonitinhos nem fofinhos. Estão espalhados pelo mundo. Deus lhes envia os seus servos, seus profetas, para lhes dar o alimento espiritual. Mas ao invés de cumprir essa tarefa alguns preferem a sombra da aboboreira.

Quando lemos o livro de Jonas geralmente nos focamos naquela relutância do profeta em cumprir seu chamado. Deus ordenou que ele fosse para Nínive, mas ele fugiu para Tarsis. Somente após ser vomitado pelo peixe se apressou em obedecer. Tudo poderia ter dado certo a partir daí, mas faltou-lhe compaixão:

“Então Jonas saiu da cidade e assentou-se ao oriente da cidade: e ali fez uma cabana, e se assentou debaixo dela, à sombra, até ver o que aconteceria à cidade.

E fez o Senhor Deus nascer uma aboboreira, que subiu por cima de Jonas, para que fizesse sombra sobre a sua cabeça, a fim de o livrar do seu enfado: e Jonas se alegrou em extremo por causa da aboboreira” (Jonas 4:5-6).

Ultimamente algumas coisas me alegraram. Coisas que não contribuem com a obra de Deus, mas serviram de passatempo, distração. Quando percebi já estava naquele ponto de olhar para a Bíblia e dizer: já vou fazer o devocional, deixa só terminar esse programa na TV. São satisfações que vão tomando o teu horário, teus pensamentos, tua dedicação. Coisas que te fazem orar menos, jejuar menos, pregar menos, trabalhar menos na obra e extinguir o Espírito em você.

Havia dito para mim mesma que poderia cuidar das plantas da minha varanda. Me alegrei extremamente ao vê-las crescendo, após regá-las todos os dias. Uma delas tem umas folhas enormes, que até fazem sombra. Aí vem esse texto de Jonas, e por motivos óbvios relutei em entender e aceitar. Continuando:

“Mas Deus enviou um bicho, no dia seguinte ao seguir da alva, o qual feriu a aboboreira, e esta secou.

E aconteceu que, aparecendo o sol, Deus mandou um vento calmoso, oriental, e o sol feriu a cabeça de Jonas; e ele desmaiou, e desejou com toda a sua alma morrer, dizendo: Melhor me é morrer do que viver.

Então disse Deus a Jonas: É acaso razoável que assim te enfades por causa da aboboreira? E ele disse: É justo que me enfade a ponto de desejar a morte” (v7-9).

Que loucura essa passagem, não é? Que atitude tola, injustificável. Tanto drama por causa de uma planta. Mas essa tal aboboreira é justamente essas coisas que valorizamos mais do que a obra. Jonas já estava distante da cidade, após pregar. No final das contas sua pregação acabou virando uma forma de fazer média com Deus.

Talvez você se sinta pressionado por todos os lados a pregar o evangelho, cumprir o seu chamado. Talvez você já tenha habitado o estômago do peixe e tenha concluído que não é bom fugir da presença de Deus. Mas o Senhor não quer esse tipo de profeta.

Naquele momento Jonas devia estar esperando que Deus derramasse a sua ira sobre a cidade. De seu “camarote” ele iria assistir todos estrebucharem. Quando todos se arrependeram ele pensou algo do tipo: “Ah, eu sabia que tu És misericordioso. Se Tu ias perdoar todo mundo porque me chamou então?” O profeta só enxergava o pecado do povo.
“E disse o Senhor: Tivestes compaixão da aboboreira, na qual não trabalhastes, nem a fizestes crescer, que numa noite nasceu, e numa noite pereceu;

E não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive, em que estão mais de cento e vinte mil homens, que não sabe discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e também muitos animais?”(v10-11).
O Senhor permite que tenhamos muitas coisas: amigos, trabalho, família e até os passatempos. Ele se preocupa com o nosso bem estar. Só que às vezes ficamos acomodados no conforto de algumas situações. Coisas que aparecem de um dia para o outro e conquistam nossa atenção, sentimentos, o teu melhor tempo.

São coisas nas quais Deus pode mandar um verme devorar e nós ficamos sofrendo por elas, como se fossem a coisa mais importante no mundo. Esta semana a tal planta da minha varanda foi comida por algum bicho. Já pensou se eu desejasse morrer por causa disso?

Jonas pregou e logo saiu da cidade, acreditando que já tinha feito a sua parte. O trecho mais impactante dessa passagem é justamente a exclamação que finaliza o livro. Deus termina o livro fazendo uma pergunta. Ele falava em compaixão. Paixão é sofrimento. Quando você tem compaixão, de alguma forma, está tomando para si o sofrimento de outra pessoa. Por compaixão você toma uma atitude, você dá suporte a alguém.

Em Nínive havia cento e vinte mil homens, que segundo o próprio Deus não sabiam discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda. Não sei qual a população de sua cidade, seu estado, mas certamente eles também não tem esse discernimento. Espiritualmente são parecidos com o bebê da foto – ovelhas sem pastor pelos quais Jesus se compadece.

“Coloque suas mãos para frente, na posição de receber”, disse a pastora durante uma oração. Nessa hora era como se aos meus olhos muitas pessoas estivessem em minhas mãos – e todas essas vidas se resumiam na imagem de uma criança. Uma criança que chora e tem fome, que precisa de alguém que cuide dela.

Às vezes tentamos ter uma rotina que não está no centro da vontade de Deus. Tentamos voltar ao “normal”. Moisés viu a glória de Deus no monte e depois disso não conseguia voltar ao normal, pois era impossível – ele queria mais. Pedro queria voltar ao normal, como pescador de peixes, mas a sua rede só voltava vazia. Não dá para voltar ao normal, pois quem conheceu Jesus já não é normal. Somos o sal, a luz do mundo.

Para voltar ao normal e ficar à sombra é preciso tirar a mão do arado. Para voltar ao normal é preciso baixar os braços. Você vai baixar os braços?
Site MANT Belém

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